Entender a história argentina, tentando comparar com a nossa, esbarra em profundas diferenças, das quais se destaca o culto às personalidades. Enquanto aqui os cadáveres ilustres espalham-se pela imensidão do território, transformando-se em pontos de visitação regionais, lá em Buenos Aires parece que há uma maior concentração.
A visita ao Cemitério da Recoleta, bairro nobre da capital portenha, transforma-se numa caminhada estafante obrigando a leitura dos nomes perpetuados nas lápides que se sucedem, adjacentes, cada qual tentando ser maior e mais imponente que a outra, como se disputassem um campeonato de importâncias póstumas.
Não pude deixar de vislumbrar o conjunto como uma espécie de condomínio fechado de generais, banqueiros, governantes, ministros, e também educadores e cientistas, alguns com suas respectivas famílias, proeminentes figuras da História. As alturas das construções, variadas, mais ou menos majestosas, algumas atingindo o correspondente a prédios de três ou quatro andares, é qualquer coisa de inacreditável!
Costumamos dizer que quem vai a Roma e não vê o Papa, na verdade não foi. Quem vai ao cemitério da Recoleta e não visita a “residência” da Família Duarte, então volte e veja.
Até que em termos de aparato é uma das construções mais modestas entre todas, mas as paredes cravejadas de placas em bronze, com um desfilar de homenagens de trabalhadores, seja através de suas organizações de classe, seja por demonstrações individuais, comprovam o quanto Evita foi amada e continua cultuada entre seus cidadãos.
É fácil encontrar o local, basta perguntar ou apenas observar onde estão concentrados os visitantes, as fotos são quase obrigatórias, nem nós, os estrangeiros, conseguimos ficar indiferentes à marca da História.
Carlos Gardel não está lá. Sua morada última é outra. Nasceu na França (ou no Uruguai?) e morreu na Colômbia, com apenas 45 anos de idade, em um desastre de avião. Argentino de coração e história, “reside” atualmente no Cemitério de La Chacarita, bem mais popular, em Buenos Aires. Lá não fui por falta de tempo.
Ícone. Gardel é o tango. Para os argentinos, o tango significa, aproximadamente, o que é para nós o samba. Pois que nasceu nas classes menos afortunadas, expressão dos desvalidos e reinava nas zonas boêmias. Nenhum par, letra e melodia, expressa de forma mais verdadeira o que habita um coração argentino. Tragédia, emoção, lembrar do tango provoca lágrimas que vertem sangue. Talvez por isso sua tristeza intrínseca cause em nós tamanha veemência.
Não conheci, até hoje, nenhum brasileiro que não se comova ao ouvir um tango. Se existir alguém assim, que fique no seu anonimato, na sua mediocridade ou, para ser mais amistoso, na sua ignorância. Não deve ser gente que presta, como brasileiro que não gosta de samba, já dizia o poeta musical, ou é ruim da cabeça ou doente do pé. Se não gostar do tango é porque não tem coração, ou se tem, é porque não passa de um mero órgão, fundamental para sobreviver e durar, mas simples acessório para viver.
Muito comum passar, não só nas lojas de discos, e ouvir no fundo um tango, é como se fosse uma trilha sonora. Direto na mente, sempre lembrando que estamos na Argentina. Tão recorrente é o apelo que o visitante não resiste, põe na cabeça que, ou assiste uma apresentação de Tango ou não conheceu Buenos Aires.
A escolha do que assistir é difícil, tantas as ofertas. Muitas das quais com aquele cheiro de coisa pronta embalada para turistas, com mais visual e menos emoção. Tivemos sorte, quase por acaso, no bairro de San Telmo, berço de Buenos Aires, muito parecido com Santa Teresa lá no Rio ou Santa Teresa em Belo Horizonte. Lá encontramos uma casa de nome “Parrilla La Rosalia de San Telmo”, cujo endereço é EE.UU. nº 482. O E,E.U.U é uma forma criativa de dizer que a rua se chama Estados Unidos.
O preço é bem razoável, o trio musical de tango é formado por um contrabaixo acústico, teclados e bandoneon, todos pilotados por jovens cultores do tango tradicional e contemporâneo, dois casais de dançarinos de altíssima categoria, esbanjando sensualidade e um cantor, com cabelos pretos penteados para trás como se usasse gumex, olha, que convence… Aliado ao serviço de primeiríssima qualidade e sem afetações, com muita cordialidade e simpatia, a casa merece uma visita. Se quiser jantar, também pode, mas é comida pra almoço e janta…
O outro contato com o tango deu-se numa ida ao tradicional e histórico “Caminito”. Muito interessante, muito típico, mas… não aprecio muito os lugares “turísticos” em que os “turistas” são abordados como se fossem a salvação da lavoura da economia local e acaba que não se sentem à vontade. Lembrei-me do Pelourinho, em Salvador, onde fui abordado a cada segundo para comprar alguma coisa que fosse, num processo que, no fundo, me pareceu uma espécie de achaque. Significando, entre outras coisas, molestar, o nativo acha que está sendo simpático, mas não está, está apenas enchendo saco e perde a oportunidade de mostrar que sua cidade é, antes de tudo, hospitaleira.
Os parques, maravilhosos, amplos, arborizados, são museus naturais abrigando esculturas e museus de altíssima categoria, como o Nacional, com obras dos mais importantes artistas da história mundial das artes plásticas, e o da América Latina, onde tive a oportunidade de ver, ao vivo e em cores, por exemplo, o “Abapuru” de Tarsila do Amaral.
A Catedral, que na fachada não tem cara de catedral, com várias pequenas capelas, uma ao lado da outra, com santos para todos os gostos e crenças. Inclusive São João Nepomuceno, padroeiro da minha cidade natal, no interior de Minas Gerais.
O metrô, o mais antigo da América Latina, integra-se ao sistema de ônibus e as caminhadas a pé, acessando os vários pontos da cidade. Curiosamente, as passagens de ônibus são pagas em caixas que só aceitam moedas metálicas, obrigando aos usuários a valorização das mesmas, tem como ponto negativo a extinção dos empregos de cobradores, num país com sérios problemas de desemprego para as classes menos favorecidas. As ruas, é verdade, estavam sujas, mas não sei se era por causa das festividades que atraíram as multidões, deixando lixos acumulados, não sei se é assim sempre, espero que não.
A visita ao bairro La Boca, onde se situa La Bombonera e o campo do Boca Juniors, revelou a pobreza, com casas misturando paredes metálicas, coloridas muitas com o azul e o amarelo, como um preito à enorme e avassaladora paixão pelo clube do coração.
No mais, muito consumo, típico de uma cidade turística que não depende de estação. Cafés, restaurantes, carnes, vinhos, assuntos aos quais não dedico particular atenção. Pra quem gosta, aproveitem.
Sinto-me, depois dessa breve estadia, como que, armado com uma tesoura, tivesse rompido a imaginária linha de Tordesilhas que me separava dos hermanos. Deixo Buenos Aires compreendendo melhor o povo, o país e sua trágica e magnífica História.
Belo Horizonte, 08 de Junho de 2010.
Paulinho Pavaneli.
* Paulinho Pavaneli é pai de 3 homens – um de cada time – mas bem que gostaria de ser pai de alguma menininha. Como isso não ocorreu aposta as fichas numa netinha. Além do mais é formado em engenharia civil, mas depois das publicações de “Corredor da Morte – Jesus está chamando” e “02 cabeças 20 sentenças” – em co-autoria com Zé Rogério – gosta de ser tratado como escritor.